sábado, 9 de janeiro de 2016

Curso de Autoestima - 002_O Poder de Sua Identidade - Parte 1



Curso Autoestima


002_O Poder de Sua Identidade – Parte 1


“O Homem é aquilo que crê”
Anton Chejov


Quem é você? Realmente sabe quem é você? Esta pergunta é de transcendente dimensão e neste capítulo veremos porquê. Veja, é bem possível que tenha feito esta pergunta em várias ocasiões em sua vida, e também é bem possível que a tenha deixado de lado pela dificuldade em respondê-la. Um exemplo da dificuldade para responder esta pergunta se pode encontrar na seguinte conversa:

-Quem é você?  Perguntou.
-Sou Juan Carlos.
-Não lhe perguntei seu nome e sim, quem é você?
-Sou formado e consultor.
-Não lhe perguntei sua profissão, quem é você? Insistia...
-Bem...sou casado.
-Não lhe perguntei seu estado civil, quem é você?

Já não sabendo o que responder, e diante da suspeita de quem era que me perguntava, respondi:

-Sou católico e vou à missa todos os domingos.
-Não lhe perguntei como acalmas sua consciência. Quem é você?

E assim sucessivamente seguiu me questionando uma e outra vez, sem que eu soubesse responder de forma correta. Aparentemente, a resposta não era tão simples, mas o que mais me chamou a atenção era que a dificuldade estava em deter-me a pensar, sim, deter-me a pensar em minha própria identidade. Creio que o que aconteceu comigo, e o que pode ter acontecido com você, é que não me dava tempo para pensar em mim mesmo, pensar no que eu era de verdade; e precisamente aí é quando se começa a andar pelos caminhos da vida sem saber absolutamente nada de si mesmo.

No capítulo anterior começamos a descobrir o que é o ser humano, e muito possivelmente você já queira responder: “Bem, eu tenho a resposta: sou um ser espiritual em um corpo físico, alguma outra dúvida? ” Pois bem, com grande razão poderia responder isso à pergunta “O que é o ser humano? ”, mas desta vez nós fizemos outra pergunta, “Quem é você? ” Existe uma sutil diferença entre ambas as perguntas porque embora tenha me dito que é um ser humano e, portanto, pareceria que se trata da mesma pergunta, permita-me confessar que não é tão simples. Eu concordo com você que somos seres humanos e por isso somos fundamentalmente espirituais com um corpo físico; porém, a nível operante, a um nível mais tangível, necessitamos responder a uma identidade “pessoal”, não apenas a uma identidade genérica. É tão importante! A força de nossa própria identidade, baseado nela é como nos comportamos. Permita-me ilustrar o conceito com uma pequena fábula:

Um escorpião se encontrava à espreita num bosque, próximo a um rio. O escorpião tinha a necessidade de cruzar o rio, mas como se sabe, os escorpiões não podem entrar na água porque morrem. Então, enquanto o escorpião se aproximava do rio, observou ao longe uma rã. Ele chegou perto dela e a cumprimentou:

-Boa tarde Senhora Rã.
A rã se surpreendeu ao vê-lo e começou a tremer de medo.
-Boa tarde, escorpião. Por favor, afaste-se de mim.
-Qual é o problema, Sra. Rã? Por que tem medo de mim? Sei que minha fama não é muito boa, mas eu só venho lhe pedir um favor.
A rã, temerosa, perguntou:
-O que você deseja? Em que eu poderia ser útil?
-Preciso cruzar o rio. Do outro lado se encontra minha família, minha esposa e meus cinco adorados filhos, tenho que vê-los, creio que eles precisam de mim. Mas se eu entrar no rio, morreria irremediavelmente, e por isso lhe peço que me ajude a cruzar, eu subo em suas costas e uma vez do outro lado, não voltarei a lhe incomodar. Me ajuda?
A rã, diante desta história, duvidou. Pensou que o escorpião não poderia lhe fazer mal, já que se ela morresse na metade do caminho, ele mesmo estaria de suicidando. Mesmo temerosa, respondeu:
-Vamos, eu levo você. E assim foi, o escorpião subiu nas suas costas e juntos entraram no rio. Mas para surpresa da rã, na metade do caminho, o escorpião cravou-lhe o ferrão, infectando-lhe com seu veneno. A rã que já começava a morrer, porém, conseguiu dizer umas palavras:
-Mas escorpião, por que fez isso? Estou morrendo e agora você também vai morrer, nem sequer vai poder ver sua família. Por que você fez isso? Por que?
O pequeno vivíparo, com uma grande tranquilidade e com uma voz grave, respondeu:
-Porque sou um escorpião, e isso é o que os escorpiões fazem.

Aí está! Esse é o poder da identidade. Esse pequeno animalzinho, mesmo tendo a necessidade de encontrar sua família, preferiu se suicidar, para atuar de acordo com sua própria identidade. Seu comportamento foi uma lógica e natural consequência de sua identidade. Da mesma maneira fazemos eu e você. Suponhamos que alguém lhe proponha liquidar a uma certa pessoa. Já sabe, está na moda por todo o mundo que quando alguém atrapalha, se pode matar. Você faria? Seria capaz? Suponho que sua resposta seja um definitivo “não” (pelo menos eu deduzo isso, pelo simples fato de que tenha decidido participar deste curso). Deixe-me comentar que eu tampouco o faria. O fato de que nem eu nem você não poderíamos matar alguém, se deve a que nenhum de nós dois se identifica com um assassino. Percebe? É enorme a força que opera em você quando se identifica com alguém. Acredite que se fizéssemos essa pergunta a um verdadeiro assassino, muito seguramente ele responderia: “Claro, de quem se trata? ”

O ser humano sempre atua em consequência à identidade que percebe de si mesmo. Assim, quando você escolhe “a forma” com que faz, sempre obedecerá a identidade que conhece de si mesmo.

Por exemplo, imagine a cena: se trata de uma senhora, dona de casa, que sabe que precisa limpar a casa. Essa senhora realmente sabe que é preciso; mais tarde chegarão as visitas que são companheiros de trabalho de seu esposo. É importante deixar uma imagem agradável do lugar, limpo e ordenado, etc., no entanto, ela não limpa. Por que? Muito possivelmente em seu íntimo, passaram reflexões como as seguintes: “Limpar? Eu? Mas eu sou a dona da casa. Limpar é uma atividade própria de outras pessoas, melhor esperar que chegue a pessoa adequada e eu ordenarei que o faça. ” Uma vez mais ficou claro o poder da identidade. A senhora identifica sua pessoa como alguém incapaz de limpar, mas é incapaz pela simples identidade, não porque ela seja limitada por algum impedimento físico, ou algo parecido. Também identifica a “outra pessoa” como aquela que é capaz de limpar.

Existem muitos exemplos como esse; o chefe que não pode responder a uma chamada telefônica porque antes sua secretária deve fazer isso, do contrário “não seria” chefe; o jovem que não deseja trabalhar porque “é” um estudante e, portanto, não deve se descuidar de seus estudos; o marido que não elogia e nem reconhece os esforços de sua esposa, porque se o fizesse, “deixaria de ser” o macho da casa, o “homem”.

Agora, se até o momento tenha ficado claro que nossa conduta e comportamento é uma lógica e natural consequência de nossa identidade, imagine qual é o comportamento de alguém que identifica a si mesmo como “deprimido”, “ansioso”, “nervoso”, etc., porque a única coisa que poderiam compartilhar conosco seriam sua tristeza, sua ansiedade e seu nervosismo. Do contrário, que agradável seria conviver com alguém que se identifica como uma pessoa alegre, otimista, confiável, etc. Não acredita?

“Acima de tudo, nunca pense que você não é bom o suficiente. Um homem nunca deve pensar isso. Acredito que na vida, as pessoas lhe tomam como você se valoriza. ”

                    Anthony Trollope

Para enriquecer abundantemente o que você e eu estamos conversamos, permita-me contar uma de minhas histórias favoritas. Está relacionada com Carlos Castaneda e seu mestre espiritual, o nagual de Don Juan.

Depois de ser perseguido por vários dias por um jaguar nas montanhas e estar convencido de que a fera iria rasgá-lo membro a membro e comê-lo, Castaneda finalmente conseguiu escapar da besta feroz. Durante três dias havia vivido com o medo de que iria ser destroçado e devorado pelo jaguar. Quando seu mestre lhe perguntou sobre essa experiência, Castaneda, segundo consta em sua obra “O Poder do Silêncio”, respondeu:

“-o que ficou em minha consciência foi que, um leão das montanhas, visto que não podia aceitar a ideia de ser um jaguar, nos havia perseguido montanha acima, e Don Juan me perguntou se eu havia me sentido ofendido pelo fato de que aquele grande gato poderia se arremeter contra mim. Eu lhe disse que seria um absurdo eu me sentir ofendido, e ele me respondeu que eu devia sentir igual respeito às arremetidas de meus companheiros humanos. Devia me proteger ou me afastar de seus caminhos, mas sem a sensação de ser tratado de modo moralmente incorreto. ”

Era óbvio que não fazia sentido “ofender-se” pelo ataque de um jaguar, porque o animal apenas estava fazendo o que fazem os jaguares. Do mesmo modo, quando sentimos que alguém nos ofende, é o momento para pensar que nada nem ninguém nos ofende, a única coisa que acontece é que essa pessoa que gritou conosco e nos ofendeu, está fazendo o próprio de um ser hostil e que grita muito, alguém que pareça nos machucar e ferir, simplesmente está fazendo o que uma pessoa com essa identidade faz. Essa é a percepção que tem de si mesmo e apenas atua em consequência disso. Reflita e fique ciente de que existe a grande possibilidade de que tudo o que ofende, pode representar a sua identidade "ofendido" ou vítima. Portanto, estabelecer regras sobre como você deve ser tratado, é uma maneira de garantir que se converterá em um ofendido crônico.

Eu me recordo de uma vez em que estava ministrando uma palestra motivacional acerca dos valores humanos, a um numeroso grupo de prisioneiras, em uma prisão do lado oriente da cidade. A experiência foi muito interessante; pela primeira vez em minha vida eu presenciava um ambiente tão hostil. Verdadeiramente não era nada agradável; o cinza das grades, o rosto nada amigável das guardas, o ambiente tenso e pesado, etc. Minha conferência estava programada para começar às 12:30hs, e às 13:15hs ainda não havia começado. A razão foi que a mulher, líder das reclusas, não estava concordando em ir me ouvir, organizou todas as prisioneiras para chegarem mais tarde, e assim, tentar me deixar desesperado. Finalmente depois de tanta espera pude começar, e a maior surpresa foi que na metade de minha conferência, enquanto eu estava falando, a líder se levanta e grita do meio do auditório: -“Palestrante, fale mais alto porque não estamos ouvindo aqui de trás”. Nesse momento todas suas companheiras começaram a rir, e eu nem preciso dizer como me senti.
Era a primeira vez em minha carreira dando uma palestra, que me sucedia algo parecido. Fazendo um alarde de minha paciência, consegui terminar minha prática e, certamente, percebi que conforme avançava em minha conferência, a atenção da audiência ia se incrementando, mas o que aconteceu no final me deixou uma grande lição de vida. Estava a ponto de sair, e me chamou a atenção o fato de que a mulher que gritou no meio da palestra, estava quieta e sentada, não se movia do lugar. Tinha os olhos fixos no chão e apoiava sua cabeça nas mãos. Quando ia saindo passei bem perto dela e pude escutar uma conversa que mantinha com a guarda que a vigiava continuamente:

“Eu aprendi que devemos valorizar a nós mesmos, eu achei isso muito bonito” – disse em tom muito áspero e vago.
A guarda que estava perto dela escutou e disse:
“Que pena que não aprendeu isso antes de se tornar uma prisioneira, sua sorte seria diferente. ”
A mulher se voltou, cravou-lhe um olhar como se não estivesse entendendo o que acabara de ouvir e respondeu:
“Bem, e como você queria, se eu não conhecia isso? ”

“Não conhecia”, nunca havia identificado em sua personalidade os valores dos quais fui falar naquela ocasião. Foi então quando me perguntei, como é possível que alguém seja bondoso, se nunca antes conheceu a Bondade? Oras, nem sequer sabia que existia. Como podemos pedir a um jovem que seja honesto, sem nunca ter visto esse valor em sua família? Como podemos convidar a viver em união, lealdade e fraternidade, alguém que nunca teve uma família, alguém sem pai e mãe, verdadeiros órfãos...com pais vivos? Com lições como esta é quando mais tenho interesse em que ajudemos a criar uma nova consciência sobre nós mesmos.

Nossa identidade começa a se formar com o conhecimento dos diferentes valores e virtudes do ser humano. Não nascemos com uma identidade predeterminada. Quando você vai a um hospital cumprimentar a uma mãe que teve seu primeiro filho, que pergunta costuma fazer? Se foi menino ou menina? Não é verdade que esta é a pergunta mais comum? Pois bem, pode perguntar isso e a resposta da nova mamãe também poderia ser uma das duas: menino ou menina. Imagine que a mamãe lhe respondesse: “Estou muito feliz, tive um pianista, ou um eletricista, ou, tive um pequeno bebê cardiologista”. Absurdo, não é verdade? Porque desde esse momento, nosso nascimento, se inicia uma longa jornada para nos identificarmos conosco mesmos, e atuarmos em consequência.  Não nego que existam fatores genéticos que nos favoreçam para tal qual identidade, mas como disse no capítulo anterior, isso apenas favorece, mas não determina.

Quem é você? Por favor eu lhe suplico que pare sua leitura neste momento e se permita pensar em algo transcendentemente valioso, em sua própria identidade. Lhe aconselho que pegue papel e lápis e escreva quem é você. Depois faça uma lista de comportamentos que validem sua própria identidade. Por exemplo, se na parte superior da folha você escreveu: “Sou uma pessoa bondosa”, abaixo escreva todos os comportamentos que validem isso, como visitar alguns asilos aos finais de semana, dividir seu tempo mais valioso com seus filhos e companheira/o, ajudar financeiramente alguém de maneira anônima, ajudar na manutenção de alguma criança de rua, etc. Faça isso agora mesmo! Escreva quantas identidades creia possuir: sou bondoso, sou alegre, sou nervoso, etc., e justifique cada uma delas. Verá que será mais fácil com aquelas identidades que “realmente” são você. Interesse-se por você mesmo; eu lhe garanto uma grande lição de vida. Se gosta de dividir com o grupo o que descobriu com esse exercício, vá em frente e o faça, por favor.


JCF
Tradução: Adri Silveira



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